Política

STF revela seis alvos de operação sobre investimentos do Iprev no Banco Master

Decisão de André Mendonça autorizou buscas e bloqueio de patrimônio de investigados; aplicação de R$ 97 milhões é alvo de apuração da Polícia Federal

Por Thayanne Magalhães com Agências 11/08/2026 07h21
STF revela seis alvos de operação sobre investimentos do Iprev no Banco Master
Viatura da PF em frente ao Iprev na manhã desta segunda-feira (10) - Foto: Sandro Lima

A investigação da Polícia Federal sobre as aplicações do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev) no Banco Master alcançou seis pessoas ligadas à gestão do instituto e à consultoria responsável por assessorar os investimentos. Os nomes foram revelados em decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou parte das medidas solicitadas pela PF.

Entre os alvos estão o ex-presidente do Iprev Ronnie Reyner Teixeira Mota, o ex-coordenador-geral de Investimentos Gustavo Antônio Rodrigues de Souza, o dirigente da Crédito & Mercado Renan Foglia Calamia, além de Marília Alexandre de Lima Alves, Marcelo Brasileiro Santos e João Felipe Alves Borges, atual secretário municipal da Fazenda de Maceió e ex-integrante do Conselho de Administração do instituto.

A decisão também autorizou buscas na sede do Iprev, em Maceió, e na consultoria Crédito & Mercado. As diligências foram cumpridas pela Polícia Federal na segunda-feira (10).

O inquérito apura possíveis irregularidades relacionadas a duas aplicações de recursos previdenciários em Letras Financeiras subordinadas emitidas pelo Banco Master. Os aportes somam R$ 97 milhões: R$ 80 milhões aplicados em dezembro de 2023, com remuneração de IPCA + 7,60% ao ano, e outros R$ 17 milhões investidos em maio de 2024, com rendimento de IPCA + 7,30% ao ano.

A exposição do Iprev ao Banco Master já havia sido identificada em levantamentos sobre os investimentos de regimes próprios de previdência. O instituto de Maceió aparece entre os maiores investidores municipais nos papéis da instituição financeira.

Falhas na análise dos investimentos


De acordo com a decisão de Mendonça, a investigação busca esclarecer como os produtos financeiros foram analisados, quais procedimentos de governança foram adotados pelo Iprev e quais critérios levaram à escolha do Banco Master.

O documento também aponta possíveis inconsistências na documentação utilizada para justificar as aplicações. As Autorizações de Aplicação e Resgate (APRs), segundo a investigação, teriam apresentado justificativas genéricas e padronizadas, sem estudo comparativo entre alternativas, análise considerada suficiente do risco de crédito, avaliação de liquidez ou exame da cláusula de subordinação dos títulos.

A apuração também pretende esclarecer a participação de cada um dos envolvidos na cadeia de decisão e na consultoria que antecedeu os aportes.

Patrimônio de Ronnie Mota


Ronnie Reyner Teixeira Mota ocupava a presidência do Iprev quando as duas aplicações foram realizadas e aparece na investigação por ter assinado as autorizações dos aportes.

Segundo a decisão, os investigadores identificaram movimentações financeiras consideradas incompatíveis, em tese, com os rendimentos declarados pelo ex-dirigente. Entre os fatos mencionados estão o pagamento em espécie de parte da aquisição de um veículo, a compra de uma unidade imobiliária com utilização de dinheiro em espécie e depósitos fracionados.

A existência dessas movimentações, contudo, integra o conjunto de elementos sob investigação e não representa, por si só, comprovação de ilícito.

Participação na estrutura de investimentos


Gustavo Antônio Rodrigues de Souza era coordenador-geral de Investimentos do Iprev no período em que os aportes foram realizados. Conforme a investigação, ele integrava a equipe responsável por receber propostas, analisar produtos financeiros e encaminhar os processos para deliberação.

Renan Foglia Calamia é citado como dirigente da Crédito & Mercado, consultoria contratada para prestar serviços relacionados aos investimentos do instituto. Documentos públicos de outros regimes próprios também identificam Calamia como responsável técnico e consultor da empresa.

A investigação busca esclarecer a atuação do consultor e da empresa nas operações que resultaram na aplicação dos recursos do Iprev.

Marília Alexandre de Lima Alves aparece relacionada ao núcleo de governança do instituto e é apontada como signatária de documentos vinculados às decisões sobre os investimentos. Ata do Comitê de Investimentos do Iprev identifica Marília como diretora executiva de Governança e Gestão do instituto.

Marcelo Brasileiro Santos integrava o Comitê de Investimentos e assinou documento relacionado à recomendação de aplicações em produtos do Banco Master.

Já João Felipe Alves Borges fazia parte do Conselho de Administração do Iprev e atualmente ocupa o cargo de secretário municipal da Fazenda de Maceió. Registros da Prefeitura mostram que Borges participou do Conselho Administrativo do instituto.

Bloqueio pode chegar a R$ 97 milhões


Além das buscas, o ministro André Mendonça autorizou medidas de sequestro, arresto, bloqueio e indisponibilidade de bens, direitos e valores dos seis investigados, até o limite global de R$ 97 milhões.

A determinação pode alcançar ativos financeiros, imóveis, veículos, participações societárias, aeronaves, embarcações e criptoativos. A medida tem como finalidade preservar patrimônio para eventual ressarcimento caso, ao longo da investigação ou de uma futura ação judicial, seja reconhecida a existência de prejuízo.

Mendonça, por outro lado, negou o pedido de afastamento dos investigados de funções públicas ou atividades profissionais. O entendimento foi acompanhado da posição da Procuradoria-Geral da República de que, neste momento, não foram apresentados elementos concretos suficientes para demonstrar que a permanência deles nas funções ofereceria risco atual às investigações.

Investigação apura possíveis crimes


A apuração considera, em tese, possíveis crimes relacionados à gestão dos recursos previdenciários, desvio de valores, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

As classificações fazem parte das hipóteses investigativas e não significam que os alvos tenham sido denunciados ou condenados. A investigação ainda está em andamento e poderá confirmar, modificar ou descartar as suspeitas inicialmente levantadas.

Iprev afirma que investimentos seguiram regras


Em manifestação anterior, o Maceió Previdência afirmou que os investimentos foram realizados de acordo com os procedimentos legais e administrativos vigentes.

A autarquia também informou que, no momento das aplicações, o Banco Master estava habilitado pelo Banco Central e pelo Ministério da Previdência e que os investimentos foram aprovados pelo Conselho de Administração. O instituto afirmou ainda que mantém diálogo com os órgãos reguladores para acompanhar a recuperação dos recursos aplicados após a liquidação do banco.

O Iprev informou, em novembro de 2025, que possuía patrimônio líquido de R$ 1,4 bilhão e que os pagamentos de aposentados e pensionistas estavam garantidos.

A reportagem não localizou, até o momento, manifestações das defesas de todos os investigados. O espaço permanece aberto para esclarecimentos.